No AC, professor constrói o próprio túmulo para poupar família de logística: 'Tudo vira despesa'
20/01/2026
(Foto: Reprodução) Túmulo antecipado de Paulo Onofre foi construído no Cemitério São João Batista, em Tarauacá
“Quando a pessoa morre, tudo vira despesa. Velório, caixão, sepultamento. Sendo assim, eu preferi deixar tudo já organizado para minha família.”
A fala é do professor Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 60 anos. O que para muitas pessoas é um temor, para ele despertou a necessidade de organização. Deficiente visual desde 2023 e em tratamento continuo de hemodiálise há seis anos, foi por conta de sua condição de saúde que ele decidiu construir o próprio túmulo ainda em vida, em Tarauacá, no interior do Acre, para evitar transtornos à família se precaver em relação à logística fúnebre.
📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp
O túmulo fica localizado no Cemitério São João Batista, único da cidade de Tarauacá. A obra foi concluída em 2025, em cerca de uma semana, e custou aproximadamente R$ 6 mil, incluindo mão de obra e materiais.
Por conta de sua condição de saúde, Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 59 anos, decidiu construir o próprio túmulo ainda em vida
Reprodução/ Instagram
Segundo o professor, a ideia de antecipar a construção surgiu há cinco anos, quando passou a conviver com as limitações impostas pela doença. “Eu só quis deixar tudo encaminhado. Aqui é passagem, ninguém fica para sempre”, acrescentou.
Ao g1, o chefe de gabinete da prefeitura de Tarauacá, Edmundo Maciel, disse que o serviço de construção de um novo cemitério na cidade já foi licitado e contratado e que está sendo feita a construção do acesso e pavimentação até o local para iniciar obras no verão.
A estrutura do túmulo do professor tem apenas uma gaveta, é revestida em porcelanato preto com detalhes dourados e traz uma cruz com asas de ferro, inspirada no Salmo 91, da Bíblia. Cada detalhe da sepultura foi escolhido criteriosamente por Paulo.
"O preto representa o luto, e o dourado é voltado para a luz", disse.
Jazido tem apenas uma gaveta e revestido em porcelanato preto com detalhes dourados
Arquivo pessoal
Natural da terra do abacaxi, como é conhecida Tarauacá, Paulo decidiu migrar para o município vizinho, Cruzeiro do Sul em 2020, após perder a função renal e passar a depender do tratamento. Cruzeiro do Sul abriga uma das poucas clínicas de hemodiálise no interior do estado.
"Tive complicações da diabetes e acabei perdendo totalmente a visão entre 2022 e 2023, primeiro foi o olho direito e depois o esquerdo. Junto disso, ainda faça o tratamento renal na Clínica de Doenças Renais do Vale do Juruá, através do Sistema Único de Saúde (SUS)", contou.
Perfil independente
Para o filho dele, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro e morador de Mato Grosso, a decisão reflete o perfil independente do pai.
O filho ainda contou que o pai sempre quis resolver tudo sozinho e apesar das limitações, antecipar o túmulo foi uma forma de manter a autonomia.
“É algo diferente da gente presenciar no dia a dia, mas meu pai é cego e em hemodiálise, nesses casos, os médicos dizem que a expectativa de vida é de até seis anos de vida, então ele quis optar por já fazer o túmulo e não incomodar ninguém", disse Craveiro.
Respeito às raízes
Paulo contou ainda, que sempre quis ser enterrado em Tarauacá, onde passou a maior parte da vida e onde estão sepultados seus familiares. No entanto, a falta de espaço no cemitério impediu que a família ampliasse as gavetas já existentes.
“Hoje é um sepultamento por cima do outro. Quando aparece um espaço, já tem outro embaixo”, relatou.
Para o professor, a reflexão sobre morte é um assunto inevitável e que não deve ser assustador. Mesmo assim, ele leva a vida com tranquilidade.
Paulo mantém uma rotina ativa e mora com a mãe, de 82 anos, em um apartamento adaptado com recursos de acessibilidade, como leitor de tela, comandos de voz e assistentes virtuais. Fora os dias de tratamento, frequenta balneários e passa boa parte do tempo ouvindo podcasts e conteúdos informativos.
"A gente aprende até morrer. Essa vida é uma passagem. A morte é um mistério que todo mundo vai enfrentar, mas as pessoas evitam falar sobre isso", destacou.
Superlotação
Por conta da superlotação do principal cemitério de Tarauacá, a prefeitura municipal divulgou em dezembro de 2022, o início do serviço de terraplanagem na área onde seria construída o novo cemitério municipal de Tarauacá, entretanto, três anos depois o local ainda não foi entregue.
À época, o Ministério Público do Acre (MP-AC) chegou a instaurar um inquérito civil para apurar possível prática de crime ambiental pela Prefeitura de Tarauacá com relação à obra de ampliação da estrutura do Cemitério São João Batista.
Naquele ano a prefeitura ainda divulgou em site oficial sobre o início do serviço no terreno adquirido por R$ 400 mil. Já no inquérito do MP, consta que nenhuma informação foi oficializada junto à promotoria da cidade sobre o terreno adquirido ou se este possuiria licença ambiental.
Quando procurado pelo g1, o então secretário de Meio Ambiente, Degilson Silva afirmou à época que, na verdade, houve um erro na divulgação ao afirmar que foi feito a terraplanagem no local.
“A prefeitura fez a aquisição dessa área e lá tinha uma licença para exploração de minério, barro e areia. A lei é clara que é obrigatório fazer o processo de recuperação da área degradada. Entramos com um pedido de licença prévia e depois disso é que podemos iniciar os estudos para posteriormente fazer o cemitério”, afirmou o secretário.
Reveja os telejornais do Acre